O dia em que Christopher Reeve voltou andar

No dia 30 de janeiro de 2000, o ator Christopher Reeve, paralisado do pescoço para baixo desde uma queda de cavalo em 1995, levantou de sua cadeira de rodas e andou, sob os olhares atônitos de milhões de telespectadores. Era o intervalo comercial da final do campeonato de futebol americano, o programa de TV de maior audiência nos EUA. Reeve aparecia no anúncio de uma firma de investimentos que comemorava os avanços que a ciência torna possíveis - como ele era a prova viva. Os telefones de organizações de apoio e de pesquisa à paralisia ficaram imediatamente congestionados por ligações de inúmeras pessoas confinadas a cadeiras de rodas, ansiosas para conhecer a cura. Infelizmente todas essas pessoas perderam a primeira frase do comercial, que explicava que a cena se dava em um futuro fictício. Por enquanto, somente os poderes da computação gráfica fazem o ex-super-homem andar de novo. A ciência ainda não chegou lá.

Ainda. Mas agora é apenas uma questão de tempo, dizem os cientistas. A paralisia decorrente de lesões da medula espinhal já não é mais considerada irreversivel. Graças a descobertas fundamentais sobre os fatores que impedem a reconstrução da medula e como combatê-los, a neurociência já sabe como recuperar a medula em ratos que acabaram de sofrer uma lesão. Em breve os novos tratamentos deverão ser testados em pacientes humanos com lesões recentes.


Danificar a medula é tão grave quanto desativar o tronco telefônico principal de uma cidade. A medula é o canal de comunicação entre o cérebro e todos os nervos do pescoço para baixo, levando milhões de cabos - as fibras nervosas. Com a medula interrompida, o cérebro perde o acesso aos sinais do corpo, e o corpo foge ao controle do cérebro. E é bastante fácil lesionar a medula. Apesar de ficar protegida dentro das vértebras da coluna espinhal, golpes fortes podem partir as fibras entre uma vértebra e outra, ou rasgar os nervos no ponto em que penetram na medula. Quedas de cavalo e mergulhos em águas rasas demais podem comprimir as vértebras, esmagando as fibras e células entre elas. Pancadas podem causar hematomas que acabam matando as células nervosas na região. E balas de revólver, é claro, dilaceram a medula.


Para reparar o estrago é preciso reconectar as fibras nervosas de um lado e de outro. Não deveria ser um problema: os nervos do corpo crescem de novo, ainda que ao longo de alguns meses, como sabe quem sofreu um acidente de motocicleta e teve a sorte de machucar só um braço ou uma perna. Mas assim que a lesão esteja dentro da medula espinhal ou no cérebro, os dois componentes do Sistema Nervoso Central (SNC), os nervos não crescem mais.


Por muito tempo se acreditou que a diferença estaria nas células nervosas do SNC, cujas fibras seriam incapazes de crescer novamente depois de cortadas. Até que, em 1981, um experimento bastante simples demonstrou que as fibras dentro do cérebro podem crescer de novo, sim. O argentino Albert Aguayo, trabalhando no Canadá, cortou o conjunto de fibras que ligam os olhos do rato ao cérebro. Normalmente as fibras não se regeneram, deixando o animal permanentemente cego. Aguayo então usou um pedaço do nervo ciático, retirado da coxa do animal, para religar os olhos ao cérebro. As fibras do nervo ciático, cortadas, degeneram; o que resta é a mielina, o envelope gorduroso dos nervos, com caminhos vazios por dentro. Mas ao longo dessa ?ponte? de mielina transplantada do nervo ciático, algumas das fibras cortadas, vindas do olho, cresceram novamente em direção ao cérebro.


O experimento sugeria que alguma coisa no SNC impede a regeneração das fibras cortadas – talvez a própria mielina, que é diferente da mielina dos nervos do corpo. Isso foi confirmado no final dos anos 80 pela equipe do neurocientista suíço Martin Schwab, em Zurique. Schwab retirou de alguns ratos neurônios sensoriais, cujas fibras no corpo voltam a crescer quando cortadas, e os pousou sobre um tapete feito de listras de mielina. As fibras cresceram normalmente sobre listras de mielina retirada de nervos do corpo, mas evitaram a mielina extraída da medula e do cérebro. Alguma coisa na mielina do SNC é repulsiva não só às fibras cerebrais, mas a todas as fibras nervosas.


Fracionando as substâncias que compõe a mielina, Schwab conseguiu purificar duas que, no teste do tapete, bloqueavam o crescimento das fibras. Eram os Inibidores de Neuritos (o nome oficial das fibras nervosas), ou IN. Curiosamente, são proteínas, apesar de a mielina ser feita predominantemente de gordura.


E aí surgiu a idéia que acabou permitindo que ratinhos paralisados voltassem a andar: encontrar uma maneira de bloquear essas proteínas que bloqueiam o crescimento das fibras na medula. A imunologia veio ao socorro da neurociência: era só fazer anticorpos contra as IN. Anticorpos são proteínas que agem dentro do corpo se grudando a substâncias estranhas, e assim impedindo sua função. Injetando os IN de ratos em animais de outra espécie, elas são reconhecidas como estranhas, e o corpo reage produzindo anticorpos anti-IN. Schwab conseguiu esses anticorpos e repetiu o teste do tapete, adicionando anti-IN. Não deu outra: as fibras agora conseguiam crescer sobre a mielina da medula.


Em 1995 chegou a hora de fazer o teste pra valer: será que bloqueando os IN haveria regeneração dentro da medula? Schwab e sua equipe lesaram, propositalmente, a medula espinhal de ratos de laboratório, e logo em seguida deram anticorpos anti-IN aos animais. O até então impensável aconteceu: algumas fibras regeneraram dentro da medula. Não muitas; apenas 5% das fibras cortadas conseguiram atravessar a lesão e se reconectar. Mas foi o suficiente para que os animais conseguissem até mesmo voltar a andar.


Com as proteínas purificadas, Schwab logo conseguiu determinar sua composição química, e usando os recursos da genética molecular, sua equipe e duas outras independentes encontraram o gene que comanda sua produção. Em três artigos publicados no mesmo número da revista Nature de janeiro de 2000, os grupos de Martin Schwab, Frank Walsh, e Warren Strittmatter descrevem a seqüência completa do IN, agora rebatizado de ?NãoVai?, ou Nogo, em inglês. Curiosamente, os três grupos descobriram que a proteína Nogo fica quase toda armazenada dentro das células, e não na superfície da mielina, como poderia se imaginar. Isso sugere que a mielina medular normalmente não inibe a regeneração das fibras; o problema surge quando as fibras são cortadas, liberando todas as reservas internas de Nogo. Funciona como um mecanismo que garante que danos no SNC não serão reparados.


Por que o cérebro teria um mecanismo desses? Talvez a regeneração na medula seja muito arriscada. Imagine o bode que daria cortar os cabos de uma central telefônica e religá-los errado: uma ligação para sua vizinha poderia ir parar no Japão. Refaça as conexões erradas, e você pode acabar mexendo o pé ao invés da mão, ou distribuindo socos ao invés de carinhos. Claro que há uma certa vantagem em evitar esse tipo de desastre; mas o mais provável é que o Nogo tenha outra função em condições normais, e que o bloqueio da regeneração seja um acidente de percurso, um efeito colateral. Com o gene em mãos, agora será possível criar animais transgênicos que não fabricam Nogo e investigar se alguma função normal é desativada.


Além disso, talvez esses animais sem Nogo tenham melhor capacidade de regeneração do que os animais tratados com anti-Nogo por Schwab. Afinal, o efeito do Nogo certamente é menor em sua ausência do que com bloqueadores, que podem ter problemas para chegar até o local da lesão. Mas outros experimentos indicam que Nogo não é a única substância impedindo a regeneração na medula. Por exemplo: camundongos imunizados diretamente com mielina, que passam a produzir anticorpos não só contra Nogo mas também contra vários outras substâncias, têm 10 vezes mais regeneração na medula do que os tratados com anti-Nogo. Com esse tratamento, metade das fibras interrompidas se regeneraram em metade dos animais, que recuperaram o controle do corpo.


Além de desbloquear os bloqueadores de crescimento das fibras, outra ajuda vem de uma droga chamada metilprednisolona, anti-inflamatória e anti-oxidante. Se aplicada até seis horas depois da lesão, a metilprednisolona aumenta a recuperação em 20%. Principalmente em casos de lesão incompleta, em que a medula é apenas parcialmente danificada.


Até 1990, quando a droga começou a ser usada, acreditava-se que não havia nada a fazer depois de um acidente com a medula. Hoje, esses pacientes já são tratados tão rapidamente quanto vítimas de infarte. Equipes paramédicas, que fazem o atendimento de emergência, usam pranchas e coleiras para imobilizar a vítima e evitar maiores estragos à medula (aliás, é por isso que NUNCA SE DEVE TENTAR REMOVER O CAPACETE de motociclistas acidentados. Mover o pescoço pode acabar sendo pior do que o próprio acidente). Além do socorro rápido e cuidadoso, as vítimas são tratadas imediatamente com metilprednisolona. Foi o caso de um jogador de futebol americano, Dennis Byrd, que hoje consegue correr novamente.


Foi o caso, também, do próprio Christopher Reeve. Só que sua lesão foi completa, e bem no alto da medula, interrompendo até o controle da respiração. Reeve sobreviveu às custas de ventilação artificial e muita persistência, contrariando todos os manuais médicos que dizem que essas lesões são fatais.


Logo após o acidente apareceram os estudos de Martin Schwab, mostrando que a reabilitação da medula espinhal é possível. Reeve se encheu de otimismo. Os cientistas lhe diziam que era apenas uma questão de tempo - e de dinheiro. Reeve tornou-se o maior e mais militante porta-voz da causa. Em 1996 criou sua Fundação, que três anos depois se juntou à American Paralysis Association, gerando a atual Christopher Reeve Paralysis Foundation (CRPF). Levantando fundos através de doações, a CRPF montou um consórcio de pesquisa sobre lesões medulares, e financia a pesquisa de centenas de neurocientistas no mundo inteiro.
Só que todos esses estudos são feitos com animais de laboratório. O custo de testar os novos tratamentos com humanos é estimado em 300 milhões de dólares - um balde de água fria em quem sonhava dar esperanças a novos pacientes. Em comparação com derrames no cérebro, que afetam meio milhão de pessoas nos EUA a cada ano, o número de acidentes com a medula espinhal é pequeno - apenas 10.000 por ano, rebaixando o problema na lista de prioridades do governo e das companhias de investimento. Mesmo assim, é só fazer as contas ao longo dos anos para ver que não ter saída para evitar a paralisia acaba custando bem mais caro: 10 bilhões de dólares por ano, ou quase 30 vezes o necessário para fazer testes com pacientes humanos.


É preciso fazer lobby junto ao público para acelerar a liberação dos testes. É preciso dizer ao público que há esperanças. E por isso Christopher Reeve aceitou participar do comercial.


E acabou sendo acusado de levantar falsas esperanças para pessoas confinadas a cadeiras de rodas há anos e anos.


É preciso ser cuidadoso quando se anuncia algo que beira o milagre. Evitar a paralisia logo após um acidente é uma coisa; recompor a medula danificada há anos é outra, completamente diferente. Reações tóxicas disparadas pela lesão continuam a danificar a medula nos dias seguintes ao acidente. As fibras desligadas do corpo da célula pela lesão rapidamente degeneram e morrem; no espaço de alguns dias, resta apenas o envelope de mielina. Isso quer dizer que se a regeneração não for promovida imediatamente, será necessário reconstruir todo o trajeto original da fibra dentro da medula, o que quer dizer milímetros para algumas fibras mas dezenas para outras, e não apenas fazer uma ponte através da lesão. Além disso, as células nervosas da medula, que não recebem mais ordens do cérebro, vão atrofiando com a falta de uso, e acabam por morrer. E não há novas células nervosas na medula para substituí-las. Por fim, com o tempo vai se formando uma cicatriz dentro da medula, no local da lesão, que além de impor uma barreira física ao crescimento das fibras, acumula uma série de substâncias que inibem a regeneração.


Por causa de todos esses complicadores, os tratamentos conhecidos até hoje provavelmente não se aplicarão a casos antigos, ajudando somente novos pacientes, que acabaram de sofrer uma lesão. Foi o que o crítico Charles Krauthammer, ele mesmo paralítico há 22 anos por causa de um acidente, lembrou aos leitores da revista Time após o comercial ser televisado. "Se eu estiver errado, o pior que pode acontecer quando o milagre chegar é que os céticos descobrirão que foram pessimistas demais. Mas se Reeve estiver errado, o que sobrará para aqueles que sonharam com a cura?"


É uma questão de informar o público corretamente. Reeve respondeu às críticas lembrando que é hora de criar imagens positivas sobre os milagres que a pesquisa pode tornar possíveis: ?o pessimismo nunca curou doença alguma.? E olha que com todos os especialistas que o cercam em sua Fundação, Reeve certamente é o primeiro a saber que a pesquisa beneficiará outros, e provavelmente não ele. Infelizmente, o dia em Christopher Reeve voltou a andar deve continuar sendo aquele do comercial, obra da computação gráfica. Mas quem sabe em breve veremos uma versão verídica desse comercial?


Fontes:
JL Goldberg & BA Barres (2000) Nogo in nerve regeneration. Nature 403, 369-370.
S David & AJ Aguayo (1981) Science 214, 931-933.
M Tessier-Lavigne & CS Goodman (2000) Regeration in the Nogo zone. Science 287, 813-814.
C Krauthammer. Restoration, Reality and Christopher Reeve. Time, 14 de fevereiro de 2000, pág. 76.